Promessas de Inverno

    A neve caía em fios contínuos e silenciosos quando Lorenzo Venturi cruzou as estradas estreitas que levavam ao Vale da Lua. O inverno naquela região sempre carregara um peso simbólico, quase ritualístico, como se todo retorno precisasse acontecer sob o frio. Ele conhecia cada curva da estrada, cada árvore inclinada pela persistência do vento, e, ainda assim, tudo lhe parecia estrangeiro.
     Talvez porque fosse ele quem havia mudado.
   Ou talvez porque retornar fosse a forma mais cruel de encarar tudo o que passara anos evitando.

     Dentro do carro, o ar estava morno, mas Lorenzo mantinha a janela levemente aberta. Gostava de sentir o cheiro do frio, a neve limpa, o perfume distante de pinheiros congelados. Era um gesto quase disciplinar, uma forma de manter-se desperto por dentro. O frio não mentia. Não suavizava. Não oferecia consolo. Atravessava a pele e avançava direto para a memória, sem pedir licença.

    Quando o Lago Clermont surgiu à direita da estrada, uma pressão antiga se instalou em seu peito. O lago parecia um espelho partido: metade congelado, metade líquido, refletindo o céu nublado em tons opacos de prata. Lorenzo diminuiu a velocidade até quase rastejar sobre o asfalto molhado. Foi ali que fizera uma das fotografias mais marcantes de sua vida: o retrato da família reunida, sorrisos contidos, mãos entrelaçadas. Um instante de felicidade que ele acreditara eterno e que o tempo, silenciosamente, se encarregara de desfazer.

      Foi ali também que, anos antes, tomara a decisão de ir embora. Escolhera não enfrentar o que acontecera. Um gesto que abrira dentro dele um buraco silencioso, um vazio que aprendera a ignorar, mas jamais a fechar.

     O Vale da Lua surgiu envolto pela neblina, como se despertasse lentamente de um sonho antigo. As casas de pedra, as chaminés soltando fumaça branca, as luzes amareladas acesas mesmo durante o dia… nada havia mudado. A cidade parecia suspensa no tempo, preservada pelo frio, guardando segredos que só se deixavam tocar quando o inverno apertava.

      Ao dobrar a última esquina antes da Casa dos Venturi, Lorenzo sentiu as mãos suarem. Não gostava de admitir, mas a casa sempre o intimidara. Grande. Austera. Mais testemunho do passado do que abrigo. Uma construção feita de silêncio.

    Antes mesmo de estacionar, uma lembrança o atravessou: passos firmes no corredor, a voz do pai chamando seu nome sem elevar o tom, e ainda assim pesada o suficiente para diminuí-lo. Lorenzo respirou fundo, soltando o ar devagar, como se tentasse empurrar aquela memória para um lugar onde não pudesse alcançá-lo.

   Quando desceu do carro, o frio cortante bateu em seu rosto. Ajustou o casaco escuro e caminhou até a porta. Cada passo soava como um anúncio involuntário: ele estava de volta. E exposto.

      A porta se abriu antes que tocasse a maçaneta.

     Alberto Venturi permanecia do outro lado, ereto, impenetrável. Os cabelos grisalhos, cortados com precisão, combinavam com a expressão contida que sempre carregara. Nada em seu rosto denunciava surpresa ou emoção.

      — Você voltou.

      A frase soou como constatação. Não como acolhimento.

      Lorenzo segurou discretamente o próprio pulso, um hábito antigo para conter emoções que preferia não revelar.

      — Era hora, pai.

     Não houve sorriso. Nem toque. Apenas um gesto seco de Alberto, afastando-se para abrir passagem. Lorenzo entrou, sentindo o arrasto pesado do passado sob a sola das botas.

     O calor da lareira preenchia o ar, mas não dissolvia a tensão em seu corpo. O interior da casa permanecia intacto: o cheiro de madeira antiga, o tapete que Clarice cuidava com devoção, os quadros de paisagem sempre melancólicos demais para um lar. Ali, o tempo aprendera a andar com cuidado.

     Clarice surgiu ao fim do corredor, um xale azul sobre os ombros, os olhos brilhando contidos.

      — Meu filho…

      Aproximou-se devagar, como se temesse que um gesto brusco pudesse fazê-lo desaparecer.

      — Você está aqui.

      — Estou, mãe.

     Ela tocou seu rosto com as duas mãos. Lorenzo fechou os olhos por um instante. O toque dela sempre encontrava a parte dele que insistia em permanecer vulnerável.

      — Você voltou mais magro… e mais triste — murmurou, quase para si.

      Ele esboçou um sorriso frágil.

      — A vida anda exigindo mais do que eu esperava.

      Alberto observava em silêncio, alguns passos atrás. Um silêncio espesso, cheio de coisas nunca ditas.

   Quando Clarice se afastou, Dona Zuleide surgiu no corredor, secando as mãos no avental. Seus olhos pousaram sobre Lorenzo com uma mistura de carinho e inquietação.

     — Ora… — disse, inclinando levemente a cabeça.

        — O inverno trouxe mesmo você de volta.

       Lorenzo respirou fundo.

        — Parece que sim, Dona Zuleide.

        Ela o observou como quem enxerga além do visível.

      — Algumas promessas precisam ser revisitadas no inverno — disse, serena.

       — Principalmente as que tentamos esquecer.

      O estômago de Lorenzo se contraiu.

      — Que promessas seriam essas?

      Dona Zuleide respondeu apenas com um meio sorriso, desses que não esclarecem, apenas confirmam.

      — As que você deixou para trás. E que a cidade não esqueceu por você.

   Clarice lançou um olhar rápido ao marido. Alberto permaneceu imóvel, como se não tivesse ouvido.

     Lorenzo desviou o olhar para a janela. A neve continuava caindo, insistente, cobrindo tudo com uma falsa aparência de pureza.

      Ele acabara de chegar, e já sabia.

      O Vale da Lua exigiria algo dele.
      E, desta vez, não haveria fuga.

   Porque o inverno não apaga o passado.
      Ele devolve. Sempre.

O Retorno de Lorenzo

Ele voltou.
Mas o inverno ainda não

tinha dito o que cobraria.